A escolha de Sofia de Guedes

Além de ameaçar a vida de milhares de pessoas, o avanço do novo coronavírus no mundo coloca em xeque a saúde da economia, que já estava muito debilitada no Brasil. Ciente desse terrível risco, o governo, na figura do ministro da Economia, Paulo Guedes, anunciou há poucos dias uma série de medidas estimadas em R$ 147,3 bilhões e destinadas a socorrer empresas e a preservar postos de trabalho. A reação foi positiva, mas deverá ser insuficiente para conter todos os estragos vindouros.

A pandemia do Covid-19 atingiu o país em um momento de persistente estagnação da atividade econômica e de grave crise fiscal, com um rombo orçamentário previsto de R$ 124 bilhões apenas para a União. Mesmo após a aprovação da Nova Previdência, a implementação de cortes de gastos e dos menores juros básicos da história, era urgente levar adiante neste ano eleitoral outras inadiáveis reformas estruturais voltadas à reabilitação da capacidade de o Estado brasileiro investir.

Para complicar, esse mesmo Brasil – combalido e carente de estímulos para dar esperança a 12 milhões de desempregados – está sendo desafiado em cheio pelas graves incertezas trazidas por outra crise, desta vez de escala mundial. O dólar disparou, chegando a ultrapassar R$ 5, a bolsa paulista derreteu e negócios reais foram suspensos. Restou então ao Poder Executivo lançar mão dos parcos recursos que dispõe em tempos de arrocho. Basicamente, o pacote de Guedes fará desembolsos agora de recursos previstos para o segundo semestre.

Juntamente com algumas renúncias temporárias de cobrança de impostos, o esforço de se facilitar saques do FGTS e antecipar a segunda parcela do 13º dos aposentados do INSS, além de reforçar o Bolsa Família, revelam a escolha de Sofia do ministro. Temeroso de deixar evoluir um prejuízo ainda maior para os meses finais do ano, com aumento de desemprego e queda na arrecadação, reacomodou a falida máquina estatal e fez uma aposta na racionalidade da população diante das emergências sanitárias.

É bem-vindo o combinado de Guedes para a proteção dos mais vulneráveis, a manutenção do emprego e o combate propriamente dito à disseminação do odioso vírus. Mas, após a travessia dessa dificílima fase, será ainda mais alvissareiro o engajamento do país na realização do ajuste profundo e perene de despesas públicas, capaz de nos proteger das cíclicas crises.

Lasier Martins
Senador pelo Podemos-RS